Nos anos 1960, não se tinha muito o que fazer na recém emancipada Tapera. A época era do “Iê-iê-iê”, como era chamado o rock brasileiro naqueles bons tempos, em que se destacavam Renato & Seus Blue Caps, Incríveis, Fevers e muitos outros. E sem falar naquela banda inglesa que começava a mudar o mundo com as suas letras, melodias e estilo: os Beatles.
Naquela época, a juventude taperense se reunia em festinhas de garagem, animadas por eletrolas e toca-discos, e, também, em boates, para dançar, se divertir e ouvir músicas, que falavam de amor, de paz, de felicidade e de liberdade, com letras que contavam belas histórias.
Um parêntese para os mais novos: eletrola, era um 2 em 1 (rádio e toca-discos) que mais parecia um balcão pelo seu tamanho, presente em poucas casas. E onde era possível empilhar vinis (discos) para tocá-los um após um.
Seguindo. Não se pode deixar de comentar que, naquele tempo, se fazia música no “braço”, como se diz, sem nenhuma tecnologia. E, na pequena Tapera, não foi diferente: um grupo de amigos deixou a cidade, após concluir o ensino primário, e foi para Porto Alegre e Santa Maria estudar. Lá, fizeram o cientifico (equivalente, hoje, ao ensino médio) e, nestas cidades, pegaram gosto não só por ouvir música, mas, também, por tocá-las.
Num determinado dia de 1964, no Bar Diana, numa das rodas de “cuba libre”, a bebida da época e que os brasileiros teimam em chamar de “samba”, surgiu a ideia de se criar uma banda, para tocar nos seus encontros de férias e, assim, ter algo a mais para fazer na Tapera daquele tempo. Liderados pelo Arno Presser, que, por muitos anos, administrou o Café – um dos templos sagrados da cidade – e que era músico e tocava saxofone, criaram o “Brasa 6”.
Também contribuíram para o surgimento da banda, o carioca Ari, funcionário do Banco do Brasil, e o irmão dele, Haroldo. E o grupo também contava com os bancários Clóvis Grotto e Paulo Roberto Dariva e os estudantes Euro Mombelli, Vitor Hugo Boff e Adalberto Henrich.
Então, o Brasa 6 tinha, na sua formação: Beto Henrich (bateria), Euro Mombelli (guitarra base), Vitor Hugo Boff (contrabaixo), Clovis Grotto (teclado e acordeom), Arno Presser (saxofone) e Paulo Dariva (bateria). No vocal, estavam o Euro, o Vitor Hugo e o Clóvis. A banda tinha, ainda, o Gusti Simon, que participava de vez em quando, e o garoto Mauro Viau, que era o responsável pela instalação dos instrumentos e o som.
O nome da banda, “Brasa 6”, foi inspirado em uma música do Roberto Carlos, que falava em “brasa, mora” – uma gíria daquele tempo, que significa: “é fantástico, entende”? Então, a expressão “brasa” significava “legal, fantástico, maneiro”. E o número 6, no nome do grupo, se referia ao número de integrantes.
Os instrumentos da banda foram adquiridos na Mesbla, em Porto Alegre, que na época vendia instrumentos musicais, tendo o Romeu Kloeckner como fiador, segundo o Dr. Beto. E, para pagá-los, o grupo passou a tocar de forma profissional.
Então, além de tocar na Boate Diana, que ficava na Rua Duque de Caxias, ali onde está hoje o bazar da Lúcia Sattler, e onde fazia os seus ensaios, o Brasa 6 começou a se apresentar nos clubes e boates da região, fazendo muito sucesso por onde passava, devido ao seu repertório e a boa pinta dos meninos. O grupo tornou-se profissional sem quer sê-lo e jamais ganhou dinheiro para se apresentar. Tudo era uma questão de diversão dos amigos, mas quando aparecia um cachê o pessoal lembrava que tinha as prestações dos equipamentos para saldar.
O Euro lembrou que para tocar em eventos os integrantes da banda tiveram de se registrar profissionalmente, como mandava a legislação. Ele tem a carteira dele até hoje caso precisar dela, me disse rindo.
A banda se reunia quando o Beto, o Vitor Hugo e o Euro, que estudavam em Porto Alegre, e o Luiz Boff, em Santa Maria, vinham a Tapera e, junto com o Paulo, o Arno e o Clóvis, que aqui estavam, para ensaiar e tocar nos eventos contratados. Na Boate Diana, eles se apresentavam nas noites de sábado e domingo, quando a região vinha em peso a Tapera. A luz negra era outra atração da casa.
Nos seus deslocamentos, o grupo ia de Kombi, com o Anair Pierezan ou o Orlando Bervian, ambos já falecidos. E, em outra Kombi, iam os amigos e as namoradas dos músicos. Além de levar alegria e boa música, os guris também levavam público aos eventos.
O Brasa 6 fazia revezamento no palco para que todos pudessem tocar e assim, quem ficava “sobrando”, ia para a pista dançar. “Eu nunca vi uma banda fazer isso”, me disse o Euro.
O grupo tocou em Cruz Alta, Carazinho, Não-Me-Toque, Espumoso, Soledade, Santa Barbara do Sul, Colorado e Arvorezinha, colecionando histórias memoráveis, das quais eu destaco três:
Uma vez, segundo o Beto, os meninos foram se apresentar em um clube de Cruz Alta e, devido à rivalidade existente, na época, entre as bandas, o Brasa 6 teve todos os cabos dos seus instrumentos cortados. Entretanto, graças aos conhecimentos de eletricidade do Gusti Simon, que estava acompanhando os amigos na oportunidade, a banda pôde se apresentar, pois ele conseguiu emendar os cabos dos equipamentos e a festa foi um sucesso.
Essa também é do Beto. Em outro episódio, ocorrido em Santa Barbara do Sul, após o baile, já tendo clareado o dia, o presidente do clube da cidade pediu aos guris do Brasa 6 para que fossem até à casa de sua namorada para lhe fazer uma serenata – algo inimaginável nos dias atuais. Pois, a rapaziada foi lá, fez bonito e, ainda, faturou um extra.
Outro momento marcante ocorreu em Não-Me-Toque. Num determinado final de semana, sem compromisso profissional com a banda, o Beto, o Vítor Hugo e o Euro, pegaram o Karmann Ghia (carro) do Arli, irmão do Beto, para uma noitada em Carazinho e, passando por Não-Me-Toque, viram grande movimentação no clube, e como tinham muitas amigas lá resolveram dar uma conferida. Sentados na mesa do bar, bebendo com elas, de repente o presidente do clube veio lhes perguntar se poderiam tocar naquela noite, pois a banda contratada avisou que não viria. Enquanto o Vítor negociava os valores, o Euro telefonou para o Paulo Dariva, o “Boca”, que acordou todos em Tapera e avisaram o Anair Pierezan da viagem a ser feita. Quando finalmente chegaram em Não-Me-Toque, já passado da meia-noite, o Clube estava lotado, com todas as mesas cheias. O grupo foi recebido com aplausos. Tempos depois os meninos souberam que a banda contratada, que deveria tocar naquela noite, era nada mais nada menos do que “The Jordans”, padrão Renato & Seus Blue Caps e Incríveis, sucesso nacional.
Segundo o Clóvis, o presidente do clube disse que pagaria ao Brasa 6 o mesmo cachê que pagaria a banda que fora contratada. Com aquele dinheiro, o maior cachê da história do Brasa 6, os meninos terminaram de pagar os instrumentos.
Infelizmente, o Brasa 6 durou poucos anos: de 1964 a 1968. Só parou porque o tempo dos guris começou a encurtar, a partir de seu ingresso na universidade. O Beto e os irmãos Vitor Hugo e Luiz foram para a medicina; e o Euro, para a engenharia civil. Eles se formaram e, dali em diante, a visão da vida passou a ser outra, então, a música faria parte deles de uma outra forma.
O Arno, o Paulo, o Vitor e também o Luiz, não estão mais entre nós. O Beto, o Euro e o Clóvis continuam aí, contando, aos seus netos, as suas histórias como músicos e sobre o sucesso que faziam por onde passavam na sua juventude.
O Euro me contou que lamenta não ter cumprido o último desejo do Vítor, que faleceu recentemente, de reunir os remanescentes do Brasa 6 para uma última apresentação para os amigos e também seus filhos e netos.
A propósito do Vitor Hugo. Certa vez eu liguei para ele dizendo que queria escrever sobre o Brasa 6. Ele ficou felicíssimo e se colocou à disposição na hora. Conversamos um bom tempo ao telefone. Por um problema de horários e agenda combinamos que mandaria para ele um questionário para que relatasse a história da banda. Passou três semanas e nada do Vitor Hugo retornar. Eu estranhei, pois ao telefone o seu entusiasmo fora grande. Quando ia enviar uma mensagem para ele entra num dos grupos de WhatsApp que participo mensagem dizendo que o médico taperense Vitor Hugo Boff havia falecido em Santo Ângelo, onde residia e trabalhava. Ele estava gravemente doente e eu não sabia, mesmo assim, ele se mostrou alegre e solícito pela lembrança. Lembrar do Brasa 6 e dos amigos deve ter diminuído um pouco o sofrimento dele.
Eu não vi o Brasa 6 tocar, porque era criança quando eles surgiram. A Boate Diana, eu a conheci, mas não a frequentei. Já a bateria do Dr. Beto, que ficava montada na casa da mãe dele, na entrada da garagem, eu cansei de “tocar” nela, quando a minha mãe ia visitar a Dona Etelvina. Bati muito naqueles tambores e pratos, mas não tinha dom para a coisa, pois, entre tocar e cantar, eu prefiro escrever. É mais o meu chão.
Por fim, agradeço ao Beto – meu padrinho de batismo e uma lenda na medicina gaúcha – e aos amigos Euro e Clóvis, por me atenderem e possibilitarem fazer este resgate de uma parte muito significativa da história de Tapera e da nossa gente. O Euro me perguntou se seria interessante a banda merecer este relato e eu respondi que sim, afinal tudo é história e história e quem a faz precisam ser lembrados, sempre.
O agronegócio é a máquina que empurra o Brasil e isso não se discute. Pois, quando todos falam em produção agrícola, em produção de alimentos, eu lembro que Tapera teve uma fábrica de implementos agrícolas quando a agricultura ainda engatinhava no País: a Mansueto Corazza & Cia Ltda.
Num dia desses, em um dos grupos de WhatsApp, alguém postou uma foto da empresa, tendo um caminhão na frente de sua sede carregando um dos implementos produzidos por ela, o que atiçou o meu faro jornalístico e de historiador.
Pois, fui atrás do empresário Álvaro Corazza, filho do Mansueto e que trabalhou na empresa da família, que me deu informações preciosas sobre a empresa e o momento econômico daquela época.
A empresa, que funcionou de 1970 a 1990, ficava na esquina da Avenida XV de Novembro com a Rua Marechal Floriano, onde estão hoje o CISO e o Hotel Walença.
Segundo o Álvaro, a empresa produzia quatro tipos de implementos: plantadeira de milho, pé-de-pato, pé-de-boi e escarificador.
A plantadeira de milho era vendida para todo o Rio Grande do Sul e até para fora do Estado. Já o pé-de-pato, com distribuidor de adubo para plantar batatas, vendia bem na região de Santa Maria, no Centro do RS.
A Mansueto Corazza & Cia Ltda produzia de 5 a 8 implementos por mês com 12 funcionários entre indústria, oficina mecânica e tornearia.
Naquele tempo, havia dificuldades para se produzir, por que não existiam peças de reposição na região e muitas delas precisavam ser fabricadas pela própria empresa, sem falar que a matéria-prima, o ferro, era difícil de ser obtida, muito cara e demorava para chegar pois não havia transporte para pouca coisa.
O Álvaro lembrou que inúmeras vezes eles pegaram o ônibus, o Ouro&Prata, de madrugada para ir a Porto Alegre comprar peças e voltar à noite, com algumas, pois não dava para se comprar todas em função dos preços.
Devido a estes valores, quando de comprava ferro, se comprava em barras que era mais em conta do que uma chapa e quando se precisava cortar era uma dificuldade para se encontrar os tamanhos necessitados porque não dava para perder o material. Não podia sobrar nem ser descartado.
Outro ponto interessante destacado pelo empresário era o modo como se negociava na época, bem diferente de hoje em dia. Naquele tempo o pessoal ia mais atrás de preço do que qualidade e durabilidade.
Pedi a ele ainda, por que a sua família não continuou com a fábrica e ele me disse que não foi possível devido à economia, que oscilava muito e que forçou muitas empresas pequenas a fechar as suas portas. Quem passou por aquele período conturbado está aí hoje produzindo essas máquinas maravilhosas para a produção agrícola no Brasil e no mundo.
Além da fábrica, o Mansueto Corazza tinha uma oficina mecânica, que funcionou nos anos 1960 a 1990, e a churrascaria, que ele próprio comandava, tudo no mesmo endereço.
Quando eu era criança, meu serviço nos domingos de manhã, era pegar a carne e levá-la até a churrascaria para ser assada pelo próprio Mansueto. E quando ia buscar ficava degustando os pedaços de carne que ele cortava sobre um cepo grande de madeira que havia próxima a ela. Ainda sinto o cheiro do tempero que ele preparava numa gamela grande.
E tem mais. O Mansueto, juntamente com sua esposa Adacir, foi por muitos anos o Rei Momo do Carnaval do Clube Aliança de Tapera, um dos maiores e melhores da região.
A título de informação. Tapera, ao longo de sua história de mais de 126 anos de existência e 68 como município, teve ainda outras duas fábricas de implementos agrícolas, sendo que uma delas está prestes a completar 100 anos. Suas histórias eu contarei em outra oportunidade.

Essa foto, fora de foco, veio do álbum do amigo Zé Dahmer (Utilar) e é bastante antiga, tendo sido batida nos anos 1970. Ela mostra a Rua Pedro Binni, aqui em Tapera, recém calçada.
A direita dela vê-se o prédio da antiga Secretaria de Obras, que abrigava o maquinário do município e onde o Cotê tinha a sua morada. Hoje, ali está o Centro de Eventos. Mais adiante, aparece o pé de chorão uma árvore muito bonita e na sequência a casa do Hermes Crestani.
Do outro lado da rua, vemos a casa que foi do Perci Walter e hoje é do Aldo Erig. Atrás, na Avenida José Baggio, aparece o prédio dos Correios. E à esquerda a Rua Doze de Maio, que acessa o Regional Supermercados.
Repare que o prédio da Corsan ainda não havia sido instalado naquela esquina.
A propósito do pé de chorão que aparece na foto, na esquina da José Baggio com a Pedro Binni. Era uma árvore que chamava atenção pelo seu porte e beleza, com galhos que desciam até o chão, e que teve de ser sacrificada por que estava ao lado de um córrego que precisava ser saneado para que a rua fosse aberta e calçada. Repare ainda que o chorão ocupava parte da via.
Outra coisa. No final da rua, no alto, não aparecendo na foto, está a Avenida Dionísio Lothário Chassot, onde foi a morada da minha família. Ali, na esquina morava a Maria Crestani, já falecida e a casa demolida. Pois, do lado da casa havia um gramado onde colocamos uma trave e nos finais de tarde e de semana disputávamos penalidades. E a coisa ia noite adentro ou até que os borrachudos começavam a infestar o lugar.