Castelinho
Nesta segunda-feira (12), em pleno feriado de Nossa Senhora Aparecida, perdi um grande amigo e a região norte do RS perdeu um baita de um comunicador: o Castelinho, aos 74 anos, vitimado por um câncer contra o qual lutava há um ano. É mais um guerreiro que perde a luta para essa doença maldita.
Castelinho foi um dos primeiros comunicadores da então Rádio Gazeta de Tapera, atual Cultura, quando da sua abertura, em 1982. Eu o conheci naquela época. O Léo Utteich, primeiro gerente da emissora, me disse que estavam trazendo um maluco de Carazinho que fazia muito sucesso no rádio e que apresentava um programa sertanejo, quando o estilo não era tão famoso quanto agora, com pitadas de bom humor. Tive a honra de ser seu operador de áudio, nos cinco anos em que trabalhou aqui, de 1982 a 1985. Nós trabalhávamos por música, literalmente, pois parecia que adivinhava seu pensamento e utilizava todos os recursos disponíveis da mesa de som, especialmente a câmara de eco, que produzia efeitos sonoros muito engraçados. Eu sabia que, de cada três palavras sérias que ele falava, a quarta era uma bomba, uma “empunhada”, daquelas de se “matar” de tanto rir. Ele vinha e eu ia. Era uma risada só. E os telefonemas? O cara recebia entre 50 e 60 ligações por dia, fora as mais de 50 cartas que vinham dos Correios ou da caixa da emissora. O programa era de segunda a sexta, das 13h às 15h. Nas segundas, quartas e sextas ele vinha a Tapera e nas terças e quintas, era gravação e eu me encarregava do resto.
O Castelinho, além de comunicador, era um grande faturador de anúncios. Ele vendia bem e trazia muitos patrocinadores para dentro da rádio e das emissoras por onde trabalhou neste Estado.
Quando o conheci, em 82, olhei aquela figura de cima abaixo e ele fez o mesmo comigo e, no mesmo instante, rimos muito, um do outro. A amizade foi grande e instantânea.
O seu segredo era música boa, com pitadas de humor e trocadilhos, sacanear o “pessoar” e inventar palavras. Nessa ele era inigualável e matava a pau. Ninguém entendia bolhufas, mas riam muito dele e do seu jeito. Jamais vou me esquecer do “Trafunca, Sarico”, “Prega fogo, Saricão” ou “Reborqueia e prega fogo, Sariscosvski”, e a música entrava. Na época do Castelinho a música de maior sucesso e mais pedida pelos ouvintes era Fio de Cabelo, quando Chitãozinho e Xororó debutavam.
Numa altura do programa ele mandava rodar uma música lenta, daquelas de dançar bem apertadinho e começava a imitar um casal de namorados conversando e “queimando” na pista de dança. O pessoal ria muito. E quando vinha gente visitar a rádio, só homens, ele apagava a luz e corria para o canto do estúdio, colocava os braços para traz da cabeça insinuando que estava sendo abraçado por uma mulher e dando uns “amassos” nela. A cara de constrangimento do pessoal era visível. E muito engraçado. Depois que viam que era uma brincadeira, riam muito. Castelinho fazia amizade rápido e fácil.
Depois que ele saiu daqui nunca mais nos vimos. A primeira e última vez que isso aconteceu, foi na rodoviária de Carazinho, não lembro o ano. Eu estava esperando o ônibus para viajar a Foz do Iguaçu e, no balcão, tomando um cafezinho, pois fazia muito frio naquele dia, notei que na outra ponta estavam dois homens conversando e tomando café. E um deles não me tirava o olho. E eu não tirava o olho dele. Quando o cara pediu mais um cafezinho, mexeu com a colher e a lambeu umas 40 vezes e tomou o primeiro gole fazendo careta, pelo calor da bebida, eu ri e logo percebi quem era a figura. Dali um pouco ele veio até mim, me olhou de cima abaixo, me abraçou e começou a pular e eu junto com ele. Ninguém lá dentro entendeu nada, pois ele só se transformava na frente do microfone. Conversamos por uns 40 minutos e ficamos de nos encontrar para comer uma carne, tomar uma cerveja, que ele tinha nojo, e falar dos tempos da Gazeta e do rádio. Depois, embarquei e nunca mais vi o Castelinho, uma lenda do rádio do interior gaúcho. Um cara que fez rádio brincando, literalmente, e fez muito sucesso.
O rádio regional nunca mais será o mesmo depois do Castelinho. Hoje, ele – o rádio – está carente de talentos, de gente carismática, o que é uma pena para quem gosta de rádio e se criou nele. O Nilvo achava que eu seria um grande radialista, mas infelizmente pendi para o lado da escrita.
“Pessoar, boa tarde pro oceis. Eu tô indo embora com Deus e oceis fiquem com ele aqui. Sarico, prepara mais duas música ai pro pessoar, que eu tenho um ombinus pra pegá. Intão, até amanhã. Amanhã eu vorto, tá pessoar? Tchaaaaau! E um nome, uma voz e um estilo se calam, para sempre.
Vá em paz, amigão, e até um dia. Tu fez a tua parte e a fez maravilhosamente bem.
Parabéns meu amigo Sarico… Aonde quer que esse grande comunicador esteja, ficou muito feliz com sua homenagem… Um abraço e que Deus ilumine nosso amigo em sua nova morada…
Me lembro da radia gazeta, mas não era do tempo do Castelinho mas ouvi muito seu programa na radia de Carazinho. Realmente uma grande perda, um carisma sem igual.
Não conheci o Castelinho.
Apenas algumas vezes, na procura de sintonia, caindo na Rádio Carazinho, ouvi aquela voz fanhosa com sotaque lá do Norte.
Mas lendo teu texto, parece que perdi um amigo também.
Existem pessoas especiais, algumas delas só nos demos conta depois que se vão.
Onde ele está, entre um e outro programa de rádio, deve ter lido teu texto e afirmado à seus novos ouvintes:
– “Obrigado, Saricóswki”.
Linda homenagem Sarico. Castelinho realmente foi uma figura diferente no Rádio, conseguiu comunicar diferente, atender o ouvinte diferente. Concordo com você hoje faltam locutores para fazer um Rádio diferente, que criem o seu estilo próprio.