As enchentes de antigamente em Tapera
Tendo em vista as enchentes que assolaram o Rio Grande do Sul recentemente, que destruíram algumas cidades, o Nadir Crestani, taperense que reside há anos em Porto Alegre, me enviou do seu arquivo pessoal este texto vindo das memórias do médico Anildo Sarturi, outro taperense que residiu em Porto Alegre, lembrado um fato da sua infância na sua terra natal.
O texto a seguir relata as enchentes relâmpagos que aconteciam em Tapera, quando chovia muito, lá no seu começo, nos anos 1930, e que causavam apreensão nos moradores.
Aprecie mais esta história da nossa Tapera.
“Em minha pequena aldeia passavam-se anos e anos sem ser construída uma única casa. O casario era todo de madeira de pinho, extraída da enorme reserva de pinheirais que estava sendo devastada indiscriminada e imprudentemente. Eram casas simples, de estilo colonial, com cinamomos ou plátanos plantados na frente, os de origem alemã cultivavam um jardinzinho e punham cortinas nas vidraças das janelas, na frente das lojas e bodegas havia palanques para os colonos atarem as rédeas dos cavalos, ruas de terra batida, valetas, as águas das chuvas corriam por sarjetas naturais. Havia dois córregos que passavam perto do centro da vila: o que vinha da fonte do Velho Baggio e o que nascia do banhado dos fundos da igreja, que dividia nosso quintal do potreiro. Estes dois arroios desaguavam no arroio Tapera, que nascia de outro córrego originário da Linha Cinco Irmãos, passava ao lado do Hospital, atravessava terrenos da chácara do Dr. Steffens, seguia em zigue-zague pelos terrenos do moinheiro Koheler onde já era maior pela afluência dos dois córregos que desciam de leste e sudoeste.
Todos os anos, quando chovia torrencialmente, as águas do arroio Tapera invadiam cerca da metade da vila, chegando nas proximidades da praça; nunca porém, atingiram nossa casa, porque ficava sobre pequena elevação do terreno da bacia, pequeno vale, que constitui o centro do povoado. Essas enchentes, depois de forte enxurradas contínuas, assustavam-me e, ao mesmo tempo, ficava alegre por ouvir gritos e vozes que ecoavam de longe.
– A enchente está chegando até perto da praça, gritavam homens, crianças, parados no meio da rua, assistindo o movimento dos homens e mulheres que retiravam móveis, cadeiras, camas, para não ficarem debaixo d’água, dentro das casas.
As águas invadiam metade das casas situadas na zona norte, baixa. A rua principal desta área ficava encoberta pelas águas. Pareciam um rio barrento. Descalço, calcinha curta, ao lado dos outros meninos da minha idade, aventurava-me a entrar nas águas até a altura dos joelhos, depois voltava correndo de medo de ser tragado pelas águas barrentas e vermelhas, como a terra da região. Improvisavam canoas com caixas velhas, retiradas dos armazéns das lojas.
O arroio Tapera inchava rapidamente, porque não tinha escoadouro, as águas ficavam represadas de uma hora para outra, formando verdadeiro rio na época das chuvas fortes e prolongadas. O córrego que passava no fundo do nosso quintal também se espraiava pelos lados mais baixos do terreno, alagando de tal forma a horta que não dava para se passar a pé e atingir a casa de lavar roupa ou subir ao potreiro. Poucas horas depois, cessadas as chuvas torrenciais, tudo retornava à normalidade, deixando as terras da horta mais férteis, humosas, aproveitadas por minha avó para plantar seus “radichis”, alfaces, tomates, cebolinha, ervilha (bizi em italiano), com os quais vovó fazia deliciosa, inesquecível sopa, rabanetes, cenouras, legumes e verduras consumidas diariamente na farta mesa do hotel.
Dia de enchente era festivo, de gritaria, sentia uma sensação de alegria e medo, no meio de nosso grupo de meninos da vila. Reuníamo-nos na margem mais alta das águas barrentas da enchente, que chegava até a frente da casa dos Tosetto, e ali brincávamos como um bando de patinhos, chapinhando na água. O comercio e o curtume fechavam as portas e mandava seus empregados para casa.
Os habitantes do povoado saíam à rua para assistir à inesperada transformação do lado mais baixo, ao norte, da rua principal, em rio caudaloso, turvo e até perigoso, embora nunca tivesse acontecido afogamento. Cessadas as chuvas fortes, em três ou quatro horas aquele mar de água escoava-se lentamente, restando, por toda parte que ficara imersa, muita lama no assoalho das casas, nas cadeiras, sofás, camas, no fogão e outros objetos caseiros.
Quando as águas baixavam inteiramente, descíamos até a zona mais atingida, vendo em todo casario mulheres de balde e vassouras na mão para limpar a casa da lama que restara. Seguíamos a pé pela alameda do bosque de eucaliptos do Dr. Steffens cortado pelo arroio Tapera, sobre o qual havia uma pontezinha em arco, de madeira, pintada de preto e listras brancas. As águas turbulentas do arroio chegavam ainda perto do assoalho, de vigas separadas, da pequena ponte. A residência do médico e o Hospital ficavam praticamente isolados por umas horas, mas nunca eram atingidos pela enchente. Depois, ouvia-se o murmúrio dos moradores da área atingida, queixando-se dos prejuízos, da violência das águas, dos objetos caseiros inutilizados. O Sub-Intendente do povoado arquitetou uma maneira de conter o ímpeto e o curso violento das águas dessas fortes chuvaradas. Foi feito, na administração do Sr. José Baggio, um valo profundo e largo, que passava paralelo à rua do Hotel Henrich, o que facilitava o escoamento rápido das águas em dias de chuva. A medida foi bem recebida pela maioria da população; outros, porém, achavam que este valo era perigoso aos pedestres e ao trânsito de veículos. A verdade é que as enchentes deixaram, desde então, de provocar as inundações que tanto perturbavam os moradores da zona norte de Tapera nos primeiros anos”.
A propósito de água, ela está no DNA de Tapera. A cidade foi iniciada próxima à ela, nesta região onde está a praça central. Contam os antigos que ao seu redor havia um grande banhado. Prova disso é que cavando poucos metros no centro a água logo verterá. Talvez por isso a canalização estoure seguidamente em vários lugares. E não é só isso. A cidade é cortada por vários riachos e sangas e tem ainda dezenas de vertentes espalhadas por todos os lados.
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