Blog do Sarico

O Cotê


GEDSC DIGITAL CAMERANa semana passada, chegou até mim, na redação do JEAcontece, uma matéria das agentes comunitárias de saúde de Tapera, falando sobre um trabalho que realizaram com os moradores do Lar do Idoso José e Rosalina Koehler de Tapera, e nesta havia algumas fotos e entre elas uma do Cotê.

Se algum dia escreverem um livro com a história das figuras marcantes do município, o Cotê terá uma ou duas páginas dedicadas a ele. O homenzinho resiste ao tempo e, foi famoso, por simplesmente ter sido apenas ele. O Cotê não fez nada que o tornasse famoso, apenas viveu e marcou.

Quando vi a foto dele na tela do computador comecei a rir e um monte de lembranças me vieram à cabeça.

Conheço o Cotê, com toda certeza, a mais de 45 anos. Não sei bem quando o vi pela primeira vez, mas faz muitos, muitos anos. Eu mudei. Ele não, conforme mostra a foto.

Lembro que quando era pequeno, nós gostávamos de ir para o centro da cidade brincar, andar de bicicleta nas calçadas e labirintos da Praça Central, brincar de se esconder e, incomodar o Cotê que, com um pedaço de pau, que lhe servia de bengala, o pegava e saia correndo atrás de nós, indignado, e nós corríamos e achávamos aquilo o máximo. Adrenalina nas alturas. E não precisava fazer muito para deixar o pequenino brabo. Só encarar ele bastava. Imagine imitá-lo.

Quando conheci o Cotê ele já era velho. Hoje, ele deve ter mais de 110 anos. Ele foi registrado muito tarde e, possui uma certidão de nascimento, contendo um ano, que ninguém sabe ao certo qual é o verdadeiro.

Quem conhecia bem a história do Cotê era o Arno Presser, antigo dono do Café Diana, e onde o Cotê fazia as suas refeições. O Arno era um pai para ele, como ele próprio o definia. O Arno me contou certa vez que o Cotê era natural de Espumoso e que conhecia a família dele, mas que lá ninguém sabia o ano do seu nascimento e como ele apareceu em Tapera, o que é um mistério.

Ninguém podia encarar o Cotê. Só o Arno Presser a quem o pequenino obedecia e respeitava. Quando ele se passava o Arno o repreendia e ele ficava quieto, parado e de cabeça baixa, como uma criança na frente do seu pai.

O Cotê tinha um casebre onde morava, nos fundos da Prefeitura velha, onde está sendo construído o Centro de Eventos, na Rua Pedro Binni. Lá ele passava suas noites, pois de dia passeava pela cidade, para cima e para baixo, sem incomodar ninguém. Tinha dias que ele estava feliz e ria muito. Mas, tinha outros que não dava nem para olhar para ele que “entortava” o beiço e ficava furioso. Não avançava em ninguém, mas deixava o lugar indignado e injuriado.

Uma “festa” que acontecia na cidade, para a piazada, era o banho no Cotê, que acontecia duas ou três vezes por ano, quando havia a troca de roupas. Lembro da briga que o pessoal do Lions Clube e alguns anônimos da cidade travavam com ele para lhe tirar as roupas e dar-lhe banho. O engraçado é que ele ficava brabo quando o pegavam para o banho e quando o molhavam. Mas, depois, de roupas “novas”, ele ficava bem cheio e ria muito.

No tempo de guri eu era um dos que o Cotê odiava, por que o incomodava muito. Depois, anos mais tarde, passei a ser seu amigo e, quando ele me via, ele passava a mão, com a palma para baixo, do ombro esquerdo (alto) até a cintura no lado direito, como que dizendo que eu era “faixa” dele. Dei muito cigarro, quando fumava, picolé e cafezinho do Café Diana para ele e não deixava a gurizada incomodar ele.

Dia desses perguntei a uma funcionária do Lar do Idoso como era a vida do Cotê no lugar. Ela me contou que ele está bem, é bem tratado, não dá trabalho e está feliz e nem imagina sair para um simples passeio, com medo de não poder mais voltar. “O Cotê tem aqui no Lar, talvez o que nunca teve na vida”, me disse a funcionária, se referindo a sua vida anterior, sozinho e perambulando pela cidade.

Tem muita gente que veio e que se foi e o Cotê continua ai, firme e forte tal qual um pinheiro. E pelo visto, o pequenino que é duro, ainda vai viver muitos anos.



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Responder Anônimo (1412635495593-986728) Cancelar resposta


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