O telefone em Tapera
Há alguns meses postei um texto do Nadir Crestani, meu tio, cujo título era Reminiscências, onde ele relembrava a sua infância aqui em Tapera. O pessoal gostou, especialmente a turma da meia idade. E num dos muitos comentários feitos, alguém citou as funcionárias da antiga CRT (Companhia Rio-grandense de Telecomunicações), que faziam o serviço – a ponte – de ligação, local ou interurbano. A ligação internacional era uma operação bem complicada, lembro. Ai entrava em cena a Embratel. Imagine… Mas, neste comentário o leitor esse escreveu: “Número?”, repetia a Terezinha Mânica, agora Schimiedt, ao telefone. Ao seu lado, Lilian Erpen repetia a palavra mágica, e enfiavam cabos e mais cabos em tomadas redondas, sobre uma mesa cheia de furos, conectando um telefone ao outro. Na outra ponta, um aparelho negro, luzidio, tocava, chamando as pessoas para conversar. Te lembra?”.
Peguei este tempo. Lembro que os telefones não tinham discador e para se fazer uma ligação ou chamada para a cidade ou para fora dela, um interurbano, era preciso tirar o pesado telefone do gancho, bater nele – no gancho – várias vezes até que uma das atendentes atendesse o pedido e efetuasse a ligação. Aquele barulho da chamada por serviço, insistentemente, as batidas, devia deixa-las loucas da vida. Nos anos 70, deveria ter uns 50 telefones aqui em Tapera. Elas atendiam o chamado e pediam o número desejado: “Aloã, número?…”, diziam. Então, a pessoa dizia o número desejado ou o nome da pessoa com quem gostaria de falar e elas pegavam um cabo longo, com um plug na ponta, e o colocavam em um dos vários “furos” existentes no painel à sua frente, que parecia um confessionário de igreja, pelo tamanho, e a ligação era completada.
Em 1975, quando trabalhava no Tapera Bureau, do Hermes Crestani, que ficava no prédio onde hoje está o escritório do Osmar Ritter, na Rua Duque de Caxias, para fazer uma ligação a Carazinho, onde ficava o INPS (Instituto Nacional de Previdência Social), que depois passou a se chamar INAMPS e INSS e que agora é Previdência Social, tínhamos de pedir a ligação antes das 08h para poder falar com o pessoal de lá, entre 11h e 12h. Era assim a comunicação por telefone há 40 anos. Hoje, com um celular nas mãos, a pessoa fala com quem quiser, em qualquer lugar do mundo, e a hora que quiser. Barbadinha essa tecnologia, não?
No começo dos anos 80, com a chegada dos sistemas DDD (Discagem Direta à Distância) e DDI (Discagem Direta Internacional), o município entrou para o mundo. Saíram os telefones de gancho e no seu lugar entraram os com discador. Eles ainda eram pretos e pesados. A voz das telefonistas da CRT começava a desaparecer. E com o avanço da telefonia elas desapareceram e com ela a companhia que acabou privatizada décadas depois. Hoje, com os novos sistemas, tudo é feito automaticamente. Pela máquina. Instantaneamente.
Outra coisa que lembro da telefonia é que, não havendo telefone celular, nem orelhões, para se fazer uma ligação tinha de se ir na telefônica. Lá se pedia o número, se esperava até ser chamado, se entrava em uma cabine fechada, com vidro na porta, e se falava, sempre depois das 20h, por ser mais barato. Depois de falar ia-se até o caixa pagar por minuto. Imagine quando se estava em outra cidade e a telefônica estava fechada e havia uma urgência. Quem é deste tempo e o viveu, e não tinha telefone em casa, sabe o que estou falando. Bem depois, quando trabalhava na estão Rádio Gazeta, fazíamos as transmissões dos jogos, do Kings Club, da Agrotap e do América (campo e salão) fazíamos por linha telefônica. Quando caia a ligação, a primeira coisa que se fazia era conferir as linhas entre a maleta de transmissão e o poste. Quantas vezes se subiu em um poste ou em uma árvore para se restabelecer a ligação. Fazer uma transmissão naquela época era uma verdadeira epopeia. Difícil era encontrar um técnico da CRT para nos ajudar. Que estresse.
Outra coisa que lembro da telefonia em Tapera foi a inauguração das instalações da CRT, prédio que funciona hoje a XMaster. O governador da época era Amaral de Souza que veio para cá para inaugurar o prédio e os sistemas (DDD e DDI). Naquele dia os professores estaduais se vestiram de preto e foram “recepcionar” o governador em frente á inauguração. Aquela manifestação foi assunto na imprensa estadual, em plena ditadura.

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